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| desenho da autora |
Quando partiu, seu amor deu-lhe
um tubo de tinta aquarela da cor malva e sussurrou “esta é a cor de minha
vida”. Assim, quando se enlouqueceu, ele passou a tinta nos lábios e
solidificou-se durante cinco dias. Catatônico. Cinco dias branco titânio, não teve
de convencer ninguém de que ele era normal, posteriormente, pois morava
sozinho. Apenas a rotina estranhou sua ausência, visto que era um homem
metódico, até então. Sua rotina tinha os olhos idosos de sua vizinha, a cor do
elevador, o timbre matinal do porteiro desejando bom dia e o insípido
cumprimento dos colegas de trabalho. Mas eram só cinco dias, e Orfeu
descongelou-se em um domingo. Levantou-se e a primeira coisa que fez foi
dormir. Assustando-se. Talvez fosse demente. Deitou-se olhando para o teto,
pijamas ultramarinos, um olhar cianofíceo, os cabelos terra de siena impactados
sobre o travesseiro, sua tristeza prolongava-se até as janelas e havia uma
náusea lacustre em seus lábios amalvados, ainda não tirara a tinta, na verdade,
nem queria. Pensou em sua boca, estava grudada, como se goma arábica, riu-se,
estrangulado, lembrou-se das cartas que sua avó mandava para algum lugar,
seladas, “devo ter algo a dizer”, pensou. Abriu os olhos em uma praia de areia
rubro alpino, sorriu e chorou tristemente. Deitou-se na areia alpina vermelha e
viu o céu violeta, tinha olhos sensíveis. Violeta quase malva. Viu o céu de sua
boca, engoliu-se. Sem dizer um único adeus.
Gravisco
Que se trabalha com mãos
Aquece n’um gasto de ar
Resfôlego
No desvão do sulco
No sumo da letra
Nada é preciso
Aquece n’um gasto de ar
Resfôlego
No desvão do sulco
No sumo da letra
Nada é preciso
Madeira rija de pedra
Sob ataque da mão de goiva
Molda-se-forma-se-cria
Textura concretalhada
Tal a linguagem
Cheia de farpas
Tábua hostil
E doce
Sem con-trato
Pé ou cabeça
Em épura está
Pura e rígida
Feito a madeira da ripa
É áspero
É tanto…
É grito!
Madeira que sem
Tenebrosa e fluente linguagem
Fala
Fala-masca gente
Clarissa Ricci Guimarães - 18 anos, graduanda em Artes Visuais pela
Unesp IA. Aspirante a onironauta senior, rabiscadora de guardanapos e polímata
frustrada pela Efemeridade. É budista, apaixonada pelo cosmos e por geometria.
Nasce e revive em São Paulo. Escreve no blog http://caliopemiope.wordpress.com/

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