A Vingança
“Minha vingança sará maligna.”
Beto Carneiro, o vampiro brasileiro
— Lembra Magrão, daquela época
brava de Bixiga?
— Porra Sinval, se lembro meu, época
sem precedentes eim...
— Quanto de vida nossa será que
ficou lá?
— Vixe Maria meu, acho que uma
década eu devo ter enterrado lá eim...
— E agora a gente aqui no Habib’s
tomando esse chope aguado.
— Pelo menos se toma dois pelo preço
de um né...
* * *
Esses encontros com o Sinval já
tavam me torrando um pouco, pra falar a verdade. No começo até que foi legal.
Rememorar é sempre legal. Mas tava a fim de cortar um pouco. O foda é minhas
brechas e naquelas de não saber dizer não
vai se aceitando um monte.
Toda sexta o pilantra mandava um torpa:
lembra dakela q vc bikô uns funça lá
na Bela Vista?
Como não lembrar, meu. A Silvana,
acho, ganhou alguma coisa. Era Sinval mandá o torpa e minha cabaça girá. Daí pra frente o rendimento ó: bao bao.
Por que? Por que eu ficava
rememorando o acontecido. Ria. E ainda faltando três horas pro fim da ripa.
Sabe como eu sei que a Silvana ganhou? Ela disse: “essas mensagens que você recebe eim...” quando entreguei aquela
Planilha toda errada.
O Sinval tem o dom.
Isso ocorre entre pessoas que se
tornaram cúmplices num determinado momento de suas vidas. Na experiência de
cumplicidade alguns fatos circunstanciais tornam-se tipo de uns marcos na linha da vida e tal.
E quando sabemos que é um marco e não uma historinha à toa? Ora,
quando vamos contar determinadas histórias que nos são muito caras. Cria-se uma
puta expectativa sobre o efeito que essa história terá no interlocutor e tal efeito é simplesmente frustrante.
Muito mais frustrante quanto maior
a impassibilidade do recebimento. Daí nosso apreço àqueles que dominam a arte
de narrar, como Cícero, como os contadores de histórias, de causos,
profissionais ou amadores, principalmente os amadores e anônimos, como meu
amigo Gilvan lá de Caraguá.
Mas quando não somos bons contadores
o melhor mesmo é deixar pra lá. Queria contar pra Silvana algumas dessas
picadilhas, as mais lights é claro.
Mas deixa quieto.
Mais vale reencontrarmos os
cúmplices que divulgarmos tais façanhas de modo atropelado e eufórico. Não é
mesmo?
* * *
— Aquela foi foda em Sinval?
— Qual?
— Aquela da Bela Vista.
— Puta que pariu meu, num sei como
você teve coragem
— Na loucura né, a gente apronta
cada uma...
— Voltar lá nunca mais né?
— Nunca mais meu, vixe, deus que me
livre guarde
* * *
Magrão e Sinval compravam pó na Bela
Vista com esquema drive true, vai
veno. Descia-se a rua com os faróis apagados, fazia-se o contorno na rotatória
e subia-se novamente com farol baixo. Dava-se um tempo. Descia-se novamente com
o pisca ligado, contornava-se a rotatória e esperava-se na esquina. Vinha um
maluco e servia. Ali era só pó.
— E Chá?
— Só lá perto da Vai-Vai.
A mão do avião. Rápida.
— quantos?, quantos?
— dois, dois
Dinheiro numa. Mercadoria n’outra.
Quem compra pó em drive true procede como aqueles que
compram Mcdonalds no mesmo sistema. Ou seja, debulha-se a droga na primeira esquina onde der pra parar.
Sinval deixara os pinos na custódia
de Magrão. Este começara peidar.
— Tem um CD ai no porta-luvas.
Encostaram numa quebra sinistra da
Santo Antonio. Magrão já batera, dividira, esticara e ajeitara duas filipetas.
Sinval enrolara a nota.
— Vai ai.
— Não não, vai ai, pode trincá.
Na primeira bambuzada Sinval sentiu que o bagulho era fraude. Um
travo nas vias aéreas superiores e tosse de quem vai morrer.
— Esse bagulho tá zuado, puta que
pariu, puta que pariu, fudeu tudo.
Nem terminou a pista. Tirou os
óculos. Esfregava os olhos e tossia.
— Água, água, preciso de água, puta
que pariu, puta que pariu
Sinval tava realmente zuado. Me
preocupei. Nesses momentos milhões de coisas passam pela cabeça numa velocidade, como dizia o Patropi.
Rememorei vários casos semelhantes: nego que cheirou pó de vidro e morreu;
fulano que ra-ta-tou gesso e fudeu até as tripa, aquele PM que trincô ENO com
sal no Carnaval; o do pó de mármore, o do fermento, o da aspirina, a menina do
pó de giz. E se o bicho morre? E a família? E a opinião pública? E a vizinhança
meu deus do céu?!
Sinval abaixa o vidro e vomita.
Parece melhor. Fiquei sem ação. Sem palavras. Numa palavra: caretiei.
— Porra Sinval que merda será essa
eim meu?
— É ENO e num sei mais o que. Acho
que giz
— Puta que pariu meu, que filho da
puta eim. Vamo no Procon?
—
Vai tomá no cú!
Sinval gostou da piada. Ainda bem.
Sinal de melhora. Joguei o resto pela janela. Um e mei na vala.
E agora? Sinval ficou taciturno.
Os dois rodaram pelas ruas da Bela
Vista. Subiram a 13 de maio. Tinha muvuca nos bares de rock. Sinval tossia
igual tuberculoso. Cafungava. Magrão acendeu um cigarro. Pensava na legalização
das drogas, num controle de qualidade, no apaziguamento dos conflitos urbanos,
no Casagrande, no Maradona, nos artistas e empresários que tem dinheiro e
compram coisa fina, que não pagam veneno cheirando pó de giz e numa par de coisa
aleatória
Pararam lá pros lados do metrô
Saúde. Colaram num bote. Pediram breja e conhaque. Sinval já foi direto na
jukebox colocar déiz conto de Tim Maia.
—
Então Sinval, eu tenho um plano
—
Um plano?
—
A gente tem que se vingar daquele cú que vendeu essa porra
—
Como assim?
—
A gente volta lá e mata ele!
—
Cê tá louco
—
Sério meu, se liga: a gente encosta, vai veno, eu na pilota, pede o bagulho e
quando ele vier entregar eu meto a facada nele. A gente passa no Carrefour e
compra uma Tramontina daquelas gigante... aquela serrilhada tá ligado? Tipo a
do Rambo... eu enfio no duodeno dele e giro...
Sinval
olhava perplexo o amigo. Eram dois que não faziam mal a uma mosca. Magrão
tentou manter o tom, mas acabou entregando. Deram risada e viraram os copos.
Magrão
acendeu um cigarro e comunicou que tinha outro plano, agora mais ponderado e
factível. Sinval não dera muita bola no começo. O amigo expôs o plano, a
limpeza, a segurança, o risco quase nulo e a possibilidade de enfim amanhecerem
na Praia Grande, comerem porção de peixe porquinho, pegar uma praia...
—
Num tem erro Sinval, o que pode acontecer é vim cinco zuado.
Sinval
levantou e foi colocar mais dinheiro na jukebox. Déiz conto de Tonico e Tinoco.
Aquela
prosa arrastada e sofrida dos caipiras, a melancolia da vida sertaneja, o choro
da viola, o patético das paisagens, o bar vazio, as garrafas sobre a mesa –
mais de oito já - tudo isso agenciava os sentimentos do homem.
—
Porra Magrão, cê dispensou tudo?
—
Tudo.
—
Caralho eim meu, e se o outro tivesse bom?
—
É mesmo eim, nem pesei nisso.
—
Agora ia bem um veneninho eim...
Sinval
queria cheirar. E quando o homem quer cheirar ninguém segura. Daí o segundo
plano do Magrão começar. Pediram a conta. Pediram pro Chiquinho trocar uma nota
de dez por dez de um real. Tudo feito. A parte material do plano tava pronta.
Voltaram
pra Bela Vista. Desta vez era Magrão quem pilotava a Unera. O procedimento.
Encostaram.
—
quantos? quantos ? – era o mesmo funça.
—
cinco, cinco.
O
maluco derrubou cinco pinos na mão do Magrão. Recebeu o bolo de notas. Sete
notas de um real envoltas por uma de dez.
—
vaza, vaza ! – gritou Sinval. Magrão saiu na maciota. Sem esticar. Olhando pelo
retrovisor. O funça contava a grana...
Pegaram
a 9 de julho. Viraram na Brasil sentido Pinheiros. Largo da Batata. Mais de
três da manhã...
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Noite cabotina
Ontem
fumei como verdadeiro literato num café da Vila Madalena.
De
calça jeans, sapato meio envelhecido, paletó verde musgo envolvendo uma gola
rolê grená, cachecol neutro, pernas cruzadas à Carlos Drummond de Andrade,
sozinho na mesa, uma taça de vinho do Porto e tragadas anônimas num voluptuoso Benson & Hedges.
Olhar
perdido no horizonte vago
Hemingway
sobre a mesa pegando sereno
E meu poema de bases futuristas, mas com
estilo sóbrio, dobrado no bolso
Pago
a conta cheio de inspiração
Quero
voltar logo pra casa
Pego o último Jacira no Largo da Batata às 00:
43 e 10° de temperatura.
Mas
em vez de ir pra casa, não sei por quem, desço no Largo 13.
E
quebro na Paulo Eiró absorvido pelo forrozão do Vavá, vai veno:
No
banheiro tiro a gola rolê e o cachecol.
Peço
pro Vavá guardar.
E
o paletó fica aberto.
Compro
Domecq e Derby vermelho.
Em
pé, na calçada, abro o maço olhando as primas descansar.
Encostado
na parede fumo como verdadeiro operário.
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Alexandre
Rosa nasceu no bairro do Eldorado, na cidade de Diadema, onde morou até os 25
anos. Reside hoje no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com sua companheira
Camila e seu filho João, de seis anos.
Tem 35 anos e é formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP. Foi office-boy, estampador de camisetas,
soldado da Aeronáutica, Segurança de casas de família, trabalhou na capacitação
de catadores de material reciclado para cooperativas, depois virou arte-educador
e professor de Sociologia da rede pública de ensino de São Paulo. Atualmente está
desempregado e faz mestrado no IEB da USP sobre Lima Barreto.
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