Dezesseis
Sem
razão, sentido!Dezesseis: deserções da liberdade!
Sentido!
Nossas grades suspensas
em troca
do pão amarelo feito
nas mãos dos que choram!
Em oito mais oito:
abdicar do voo, cor
nuvem
flor.
Em oito mais oito: marchar!
Avante, sem luz, sentido!
Para frente, para baixo,
sem céu!
Rumo à entrega de nossa dignidade!
Não tenham um amor,
não tenham um nome,
não tenham desejo,
um lampejo sequer,
não beijem - não há tempo!
Precisamos lançar ao espaço
nossa humanidade!
Vamos encher de vazio
nossa taça, rechaçar
pés
mãos
asas
tudo!!!
Não tenham um par
de olhos azuis para amar.
É preciso apartar!
Vamos celebrar
o ferro, o fel, o escudo.
Nasceu uma flor no jardim,
não há tempo,
não é tempo de flores, mas grades,
cabresto, silêncio e cinza-chumbo.
Vamos deixar a sorte lançada
na favela, no morro, na dor de fome!
Vamos usar panelas, fechar janelas,
insular, cegar! Vamos proibir,
coibir, a galope!
Não seja canhoto!
Como bois ao abate, marchem!
(Levo em segredo, degredo, exílio:
o azul infinito dos seus olhos,
o sorriso doce dos jovens,
meu coração que pulsa,
minha utopia
e uma flor).
(Agosto de
2015)
*
07 DE JUNHO
a vida
corria leve as manhãs embandeiravam grandes desejos
pensou em
deixar o país
num segundo e passou
vida breve um sopro sonho se viu por baixo da neblina londres talvez argentina
enquanto engoliu a primeira garfada com dentes
no restaurante parou um carro de boinas
CINZAnum segundo e passou
vida breve um sopro sonho se viu por baixo da neblina londres talvez argentina
enquanto engoliu a primeira garfada com dentes
no restaurante parou um carro de boinas
desceu o almoço engasgado sem cor olhou
limpo azul total de sol
(onde estavam os amigos? – preocupou)
claro
como espelho
se viu
frança angola nordeste tailândia acre sudão
na calçada
uma flor linda delicada lilás e um curumim
pleno coração via lacteando
grande árvore de raiz
profunda.
(Junho de
2014)
PRÉDIO
Ele -
olhava o alto para sentir o íntimo das janelas do novo prédio. O que via eram potências
construídas umas por cima das outras, entijoladas e mais ainda, entijoladas.
Ela - olhava o mesmo íntimo. Viu um velho branco a contar os carros. E observou como nele o tempo passava com nobreza.
Ele olhava o alto para aproximar dos pensamentos cada viga que sustentava o novo prédio. O que via eram vigas encimadas de vigas.
Ela olhava o mesmo alto. Viu um vaso de flores miúdas e um jardim lilás. Arriscou: se voassem as flores, despetalassem por toda a cidade, haveria mais cor e alguém seria feliz por isso.
Ele olhava o alto para se emaranhar no primor gelado de cada um dos pontos de cimento, como era lindo o novo prédio. Cimento sobre cimento, branco de gelo puro.
Ela olhava o mesmo ponto. Viu que a cobertura terminava no azul e sobre a parede laranja subia um pequeno inseto teimoso. E viu que no jardim do quintal ao lado estava aberta uma flor vermelha. Perguntou: será que a noite cai?
Ela - olhava o mesmo íntimo. Viu um velho branco a contar os carros. E observou como nele o tempo passava com nobreza.
Ele olhava o alto para aproximar dos pensamentos cada viga que sustentava o novo prédio. O que via eram vigas encimadas de vigas.
Ela olhava o mesmo alto. Viu um vaso de flores miúdas e um jardim lilás. Arriscou: se voassem as flores, despetalassem por toda a cidade, haveria mais cor e alguém seria feliz por isso.
Ele olhava o alto para se emaranhar no primor gelado de cada um dos pontos de cimento, como era lindo o novo prédio. Cimento sobre cimento, branco de gelo puro.
Ela olhava o mesmo ponto. Viu que a cobertura terminava no azul e sobre a parede laranja subia um pequeno inseto teimoso. E viu que no jardim do quintal ao lado estava aberta uma flor vermelha. Perguntou: será que a noite cai?
(Julho de
2014)
Elaine Garcia é professora Especialista em Artes Cênicas, São Paulo. Iniciou a
carreira no Teatro e Literatura em 1997, tendo como principais referências o
Teatro e a Poesia de Rua. Autora não editada. Os poemas aqui apresentados são parte do livro “Flor Lilás”, com o qual se inquieta nos últimos anos. Estão inacabados.

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