Choi Seung-Ho (1954) nasceu em Seul, na Coreia do Sul. Seus poemas estão atravessados por uma visão mística - com influência de religiões orientais como budismo e taoismo, sem que isso signifique uma adesão a elas. Sua poética apresenta uma visão contundente sobre a sociedade moderna industrial. A poluição e a decadência em contraste ao mundo natural e animal povoa seu imaginário, mas não se sugere a redenção ou o refúgio pacífico na natureza como possibilidades.Estes poemas aqui apresentados foram postos em português, principalmente a partir da tradução para o espanhol, encontrada em Autobiografía de hielo (Bajo la luna, Buenos Aires, 2010). Também foram consultadas traduções em inglês e francês. A tradução de uma tradução é sempre temerária, mas se justifica pela inexistência até agora de traduções para o português diretamente do original. Fazemos votos que em breve os leitores de língua portuguesa possam contar com uma tradução dos seus poemas do coreano.
Marcus Groza
Cobrase me ponho a pensar na cobraque golpeei com uma pedra e joguei no lodoenquanto caminhava um dia pelos limites do arrozalme parece que a pedra era uma Sagrada Escrituratambém me ocorre a confissão de um poeta africanoque ao ser abandonado por sua amante fugiu para o desertoe com uma pedra golpeou seu membro viril
ainda que o Serpentário esteja pertoquem levará as serpentes mortas a essa constelação?os santos consideram pecadoo prazer de arrastar-se no lodaçala serpente que desconhece o karmapenetra deslizando-se no pântanoo seu rebuliço faz ondular as plantas aquáticase a oscilação se estende por todo o pântanode súbito a serpente desaparecee caem em linha reta os ardentes raios do solfazendo que a serenidade do pântano ferva
A estátua de Buda que medita seminu não tem pensamentos profundosnão tenho alavancanem ponto de poionem Deus nem Buda podem ser alavancas minhasestou sópor não ter onde me apoiarme apoio em mim mesmoesse eu é inseguromas me apoio nesse euestou sóas agonias profundas não podem ser compartilhadasminhas agoniassão mais profundas que a estátua de Buda que medita seminua estátua de Buda que medita seminu não tem pensamentos profundostambém não tem pensamentos levianosespaço de vazio totalé bela a estátua de Buda seminuessa belezaa levo aqui dentro comigomas não a vejo porque não consigo encontrar
Terreno Baldiopode ser que a tranquilidade indestrutívelseja o senhor que domine o terreno baldioainda que pareça vazio o terreno baldioestá sempre cheio de alguma coisano terreno baldio está dormindo o vento
o vento que redemoinhade quando em quando o ventoarremessa sementes cobertas de penugeme faz florescer o terreno baldioquanto ao que envelhece e murchao terreno baldio não diz nadaoferece a terra com suapresença vazia aos que passamnos dias livresos lagartos atravessam o terreno baldioainda que o pássaro passando deixe ali suas pegadasnão vão se manter por muito tempoa areia muda de postura com as gotas de chuva caindo do céuo terreno baldio apaga os rastrospode ser que a tranquilidade que não deixa rastrosseja o senhor do terreno baldioO caminho do boneco de neveque o boneco de gelo derretasignifica que o boneco de gelo se queimaque se queimesignifica que o boneco de gelo está se convertendo em cinzasa cinza é águabranca cinzaa cinza que não pode tornar-se mais branca é águae no riacho flui cinza branca
o boneco de neve toca o tambor-aquárioflui pelo rio o mar e a Via Lácteaque fluasignifica que regressae que regresse significa que em algum lugarpode permanecer por muito tempoBacalhau desidratadode noite em uma barraca de alimentosentre o pó assentado com o tempocobre-se mais um dia com a sujeira das mãos que tocamesperam sem remédioos bacalhaus desidratadosum pelotão de bacalhaus desidratadospendurado com uma linha
me refiro às cabeças perfuradas pela morteumas dezenas de línguastão duras como as pedras
creio ter falado dos mudos em suas tumbase de pessoas que padecem de enfezamento das palavrasolhos estripados e secosnadadeiras endurecidas dos bacalhaus desidratadospensamentos que parecem troncos de madeirapessoas que parecem troncos de madeira sem brilhopessoas que levam no coração nadadeiras frescase não têm aonde ir nadar
no momento em que penso"são uns infelizes!"subitamente os bacalhaus desidratados arregalam os olhos"você já pode ver, você também é um bacalhau desidratado,é um bacalhau desidratado um bacalhau desidratado!"e continuam a grunhir até ficarmos com um zumbido nos ouvidos

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