nas curvas da lua
minguante
i
quando delira o peixe
penso design líquido
rabisco efêmero
brilho lírico
ii
quando fisgo o peixe
o anzol me fere
a memória esvazia
no intervalo silente
iii
quando me esqueço
as águas deitam raízes
o peixe se retira
nas curvas da lua minguante
.
vértebras
de uma coluna metamórfica
i
o peixe amarelo
devora o caroço estático
da noite que traz
na mochila
o azar do dia inteiro
o porta-voz-do-kaos
anuncia uma nova ordem
.
encaro
três olhos negros
de sementes venenosas
arremesso
uma isca de cor no vão
dos desejos da retina-telescópio
pesco
hálito gostoso
.
carregando um
filtro-dos-sonhos
no pescoço
heráclito
devasta
o grelo do ocidente
montado
no seu ciclone-devir
cria uma
cosmologia invertebrada
com os ossos
de cada lua minguante
.
a cordilheira que nos
invadeao som do clube da esquina
jubilosa figura ametista
teus lábios são territórios carnívoros e neles
traduzo tua forma de ser no balanço da casa:
–
língua de dois conjugados
jurados
até os dias últimospacto de selo-carne
ungidos em unidade rock
nos pátios da visão devassa –
invado
teu quarto secreto
me
alio ao venenoso do teu signodecifro a temperatura do teu pescoço-abismo
envio envelopes com serpentes sedutoras.
tua
música tem fome de elaborações murmurosas
os
miados são consequência de agrados sigilososmarcamos no calendário um truque contra o tempo
num lampejo súbito libertamos desatinos circulares.
fulgurantes
e contaminados, nos fazemos cordilheira
nossa
essência réptil ... nossos rins vegetais ... transfiguramos a mata densa em lençóis brumosos
... brotou uma orquídea lilás no alto de nossas virilhas.
naquele
cemitério de asas
roubamos
um voo que estava encostadodesenhamos raízes aéreas para o pouso
saltamos sem medo sobre os ombros rochosos.
.
o carteiro
hoje o carteiro entregou infâncias na
casa do poeta
e disse que a espera faz parte da
gestação.
hoje o carteiro trouxe uma matéria não
repetível
e afirmou que sua feitura não passa
por oficinas.
hoje o carteiro rezou uma caminhada
longa
e foi buscar postais de um mundo
imaterial.
hoje o carteiro fotografou ruídos
feudais
e os entregou em recantos sem número.
hoje o carteiro endereçou urgências para
corações sem identidade
e explicou que a entrega é pensada no
silêncio oco do escuro.
hoje o carteiro plantou esperanças em
um novo endereço
e levou tudo em um grande baú
cintilante.
hoje o carteiro inventou louças para
um maestro
e disse que eram novos instrumentos
que lhe chegavam.
hoje o carteiro embalou horas maduras
e uma família inteira fez farra com o
presente.
hoje o carteiro arrematou aromas
antigos em um leilão
e apontou para as despedidas se
abalando nas portas.
hoje o carteiro acordou de mau humor
e entregou infernos retirados de uma
bolsa incendiada.
hoje o carteiro quis ser carta e ao
invés de entregar coisas
preferiu se lançar às acrobacias da
noite.
hoje o carteiro amanheceu de ressaca
e conversou com as esquinas e
descobriu os abscessos maquiados.
hoje o carteiro sentou-se com o poeta
para tomar café
e prometeu que daqui a uns meses lhe
trará o inesperado.
Demetrios
Galvão
– habitante da cidade de Teresina é poeta, professor e historiador, com
mestrado em História do Brasil (UFPI). Publicou os livros de poemas Insólito
(2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e
foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista
(2011-2012). Tem poemas publicados nas antologias Massanova Literatura (2007) e
Poematologia – os melhores novos poetas do Brasil (2012). Atualmente é um dos
editores da revista Acrobata.
e-mail: demetrios.galvao@yahoo.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário