| le diable jaune, por julia bicalho mendes |
as pessoas de ontem nunca nasceram,
nunca é dia ontem : ontem é uma vala,
um depósito, armazém de ferragens :
as pessoas de ontem comem sorrindo
um sorriso de animais com dor : ontem
tem a indigestão de fotos, de famílias,
de amarelo e de amassado : ontem
jamais foi o passado, ontem houve
como um sonho contado em pesadelo
e as pessoas de ontem viajam à noite
na mais densa neblina, todas surdas
aos nossos gritos : ontem é um abismo
onde pés deslizam e os rostos vão
cobertos de uma cal de cegar ao sol.
quem quer ontem hoje? e quem será
amanhã senão perdido no limiar do não?
a engenharia de eva
todos os rostos terminam em ossos
exôdo em massa, os seus olhos
batalha de flores, o sopro nos lábios
mármore e sol, pedra fundamental
seixos, se apertam; suaves, se duros
sombra de pêra, fluida luz de laranjas
término, régua de curvas do leite
seqüestro, os sentidos; sala e silêncio
todos, seus; um, dois, todos: perdidos.
chute no traseiro
cansado de pisar e de ser pisoteado
em meio às minhas aventuras
tive certa noite um pesadelo
pra acabar de vez com essas frescuras
era amor que me chutava no traseiro
rindo e apontando o meu tinteiro;
aguento flecha, choro, rilhar de dentes
mas isso eu te digo: não há quem aguente
“amor, filho da puta, que diabos?”
e o moleque nem aí, limpando as unhas
e o espaço entre os dentes
e com olhar pênsil de fodaz enfado
“não me amola, que bocejo,
vocês humanos vendem a alma por um beijo”.
vocês humanos vendem a alma por um beijo”.
Dirceu Villa (São Paulo, 1975). Poeta, tradutor e ensaísta. Publicou os livros de poemas MCMXCVIII (1998), Descort (2003), Icterofagia (2008) e Transformador, poemas: 1998-2013 (2014). É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009) e de Lustra, de Ezra Pound (2011).
+ Dirceu Villa nos links:
- O Demônio Amarelo
- modo de usar & co.
- escamandro
- enfermaria 6
Um comentário:
Postar um comentário