Espaço público
Dia
a dia, são diásporas
que
transmutam as entranhas
das
cidades. Megalópoles
erigem
distâncias tantas,
fundam
tribos sem contato
e
sem qualquer vizinhança.
A
carne da multidão
se
esvai em sangue no cinza
asfalto,
donde não rompem
quaisquer
flores improváveis.
Célere,
transita a vida
sem
chegar a não-lugares.
Faustos,
beatos, pactários,
faunos,
putas, cramulhões,
rábulas,
cegos, senhores,
indigentes
e doutores:
os
frágeis pés dessas gentes
acumulam
pó das ruas.
Os
pés passam desfilando
o
transitório das gentes
sobre
o pó de todo espaço.
Público.
Local de encontro,
concerto
ou desacerto
de
almas sempre sozinhas
Corpo
cerzido
Trago nas mãoso cheiro escuro e acrede um medoque comecei a adquirirantes mesmo da linguagem.O medo recende a carne crua,a gordas gosmas de víscerascortadas pelo fio fino, frio e preciso
de um bisturi.Ouço o fio de vozsussurrado pelas sete cicatrizesespalhadas em meu corpo.A sensibilidade mais agudasob a pele fechada dessas feridastestemunha o medoda morte.Morte não havida,dessas que pesam
e aliviam.Em meu corpo cerzido,um corte cerradona planta do pé direitoe outro no tornozelotestemunham esses milagres que sãomeus passos.Entre a linha imaginária da cinturae a da base da pélvishá tanta marca,tanta agenesíase,que do intacto períneo,
de onde imagino irradiar –vértebraavértebra –a alquebrada kundalini,jorram as palavrase a própria forçada voz.
Se
eu acreditasse num deus
se eu acreditassenum deusnão seria no seuque se vinga para sempreda ignorânciae da fragilidade humanasque demanda louvores uníssonosou destina quarenta virgenspara serem eternamenteestupradas por assassinosque explodem pessoas aleatóriase o próprio templo-corpoem nome da pureza da féque é menos capazde acolher o múltiplo e o diversodo que a própria humanidadeque não ri condescendentedas estranhezas do comportamento humanocomo pais riemdos pensamentos puerisde seus filhos pequenosse eu fosse tocado pela graçade crer em alguma coisa para alémda agnosiaminha divindade seriamais mãe do que paimais Gaia do que Yahwehmais terra do que céumais água do que fogomais fecundidade do que ascesemais mística do que dogmamais andrógina do que másculamais amordo que o amor condicionaldos deusesem que jamais fui capaz de crer
Canção
profética
(Para
Fabiana Turci)
O
vento sopra e espalha meus cheiros
Danço
no rastro de uma melodia
Giro-me
na gira dos dervixes
Penso
com o tambor do peito
Digo
a melodia do desejo
Ajo
onde os olhos põem minhas mãos
Invento
o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A
umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda
que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo
um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco
ancestralidades e tempestades
Toco
meu terreiro com pés e mãos nus
Piso
o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me
em águas e pântanos
O
Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu
me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma
canção profética já me anunciava
Pelo
amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu
te busco em meus pensamentos, palavras e atos
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