Notas sobre o Rosto

Não vejo meu rosto em sonhos; nem sequer em um reflexo. Sou sempre, como na vigília, aquele que que está por trás do rosto. E, no entanto, sou também meu rosto. O rosto é um lugar utópico com o qual me apresento ao mundo, mas do qual não tenho conhecimento.
O espelho só mostra o que eu procuro perceber. Um retrato é sempre registro do que fui anteriormente, nunca minha expressão presente.
Um rosto é um sistema muro branco – buraco negro, um projeto de identidade que se impõe sobre nossa face. Este É você, diz o rosto social. Se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino (Deleuze/ Guatarri).
Desconfigurar o rosto é tentativa de escape de tudo que previamente nos mascara com definições.
Maquiar, plastificar, des-cara-cterizar:
um rosto é um escândalo (Bataille).
Essas selfies são em construção, como só poderia ser um rosto em fuga, um rosto que escapa por meio das imagens de um “inconsciente-tecnológico.”
Expor estes anti-retratos é busca de suportes diferentes: impresso, projetado, virtualizado, colocado de pé em um objeto tridimensional.
Em que outros corpos cabem tais rostos?
Tadeu Renato é poeta, dramaturgo e outras coisas. Publicou poemas em LETRAS PARA MELODIAS CORPORAIS e dramaturgia em lenz, um outro (ambos pela Edições de Risco). Partilha textos em varandeando.blogspot.com e experiências visuais no Instagram @tadeu_renato.









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