minha Potosí invadida
pra sustentar teus olhos claros
minha pele morena em tua cruz de malta.
há dias que o poema estanca
atravessado como uma Palestina
II
meu
coração como um gado
não merece um poema,
não se dedicam palavras aos bois.
sonhando-se livre, aperta-lhe o cerco
arame farpado e pode pastar
até onde o desejo alcança.
deito-lhe a noite
céu distante e clarins mais
não lhe afeta o verde inóspito.
sozinho ele chora, contrariando pensamentos
- um boizinho sente o bumbar -
e inventa canções para pastar com as horas.
não merece um poema,
não se dedicam palavras aos bois.
sonhando-se livre, aperta-lhe o cerco
arame farpado e pode pastar
até onde o desejo alcança.
deito-lhe a noite
céu distante e clarins mais
não lhe afeta o verde inóspito.
sozinho ele chora, contrariando pensamentos
- um boizinho sente o bumbar -
e inventa canções para pastar com as horas.
meu
coração retumba e tomba
corno mais - cornucópia linda
entre frutas e flores:
chifre afiado e mato mesmo!
saia da frente pra eu pisotear cercados
avançar terreiros, invadir quintais.
corno mais - cornucópia linda
entre frutas e flores:
chifre afiado e mato mesmo!
saia da frente pra eu pisotear cercados
avançar terreiros, invadir quintais.
viva
a manada de um boi sozinho
que não sonha a grama verde que domina o mundo
mas que sustenta um vazio sem fundo que vai
onde um coração malhado não escolhe
preto no branco, branco no preto.
que não sonha a grama verde que domina o mundo
mas que sustenta um vazio sem fundo que vai
onde um coração malhado não escolhe
preto no branco, branco no preto.
e
mentem uma cor tão cinza
quando o seu sonho cardiológicos
é technicollor por freqüência afetiva
quando o seu sonho cardiológicos
é technicollor por freqüência afetiva
XVI
meu
amor, se eu precisar parar no meio da estrada
você jura que me atropela?
atravessa o tempo pra mim e me encerra?
você jura que me atropela?
atravessa o tempo pra mim e me encerra?
quando você abriu a porta da geladeira:
patê
defumado era meu
coração ali dentro
coração ali dentro
esfumaçado de frio
-
bem como o conheceu, lembra-se? -
então, da próxima vez que for cortar as cebolas
me atravessa a faca antes de começar o choro?
então, da próxima vez que for cortar as cebolas
me atravessa a faca antes de começar o choro?
e
se for muito difícil pra você, me põe pra dormir
e não me acorda mais.
e não me acorda mais.
foto_ Rany Carneiro
Cintia Luando, poeta, compositora e atriz, é autora do livro “Palarvore" (2012 – Azougue), contemplado pelo Edital “Novos Autores Fluminenses”. Integrante da banda “Os Desmantelistas” (Composição, voz e violão), atuou recentemente nas montagens teatrais “Metamorfose” e “Moby Dick”. Também atua como arte-educadora e contadora de histórias.

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