projeto JANELAS DE SP
um desenho por semana pelas ruas de São Paulo.
por Nara Rosetto
um desenho por semana pelas ruas de São Paulo.
por Nara Rosetto
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| 2014 |
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| Minhocão, 2014 |
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| Red Bull Station, 2015 |
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| SESC Pompéia, 2015 |
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JANELAS
um poema de Alexandre
Costa
Incontornáveis,
possuem a força do que se vê todos os dias
e a nitidez pelo que se vê os dias todos.
Por toda a parte,
incontáveis,
janelas partem
a intransigência do concreto,
cedendo-o à imensidão.
Há quem as considere uma espécie de porta,
com o pensar indiferente e distraído
de quem não distingue coisa e coisa:
uma porta,
uma passagem para o corpo;
uma janela,
uma passagem para uma outra coisa qualquer.
Janelas têm o dom de atrair os olhos,
cativando-os
com o ímpeto irresistível de um instinto.
O que haverá atrás de uma janela
que enfeitiça tanto?
O que há em seu detrás,
independentemente de onde se esteja,
aquém ou além dela?
Por trás de uma janela não há nada,
só a janela mesma
a comunicar dois mundos.
É como um prisma,
a janela,
traduzindo-os de luz a luz:
o ponto claro que abre o universo,
o feixe raro em que o sólido admite sua
fragilidade.
Uma janela,
a parte oca em que a parede densa
leve se declara;
o espaço em que se cria trânsito
para o que além era prisão.
Há tanta esperança na ideia de uma janela
como se (ela) prometesse
uma fuga da mesmice,
uma abertura para a amplidão que nos escapa,
um horizonte qualquer onde a vida cresça.
Mas janelas não prometem –
janelas mostram.
Mostram o que há e é,
como se fossem os olhos de todo edifício,
como se fossem os óleos que lubrificam a visão.
Se tua casa é pequena
mas a janela ampla
ela divisa a vastidão do campo que semeias.
Por isso são tristes e tímidas as pequenas
janelas
- como as das celas -
que não ampliam,
antes atrofiam,
o que vai lá fora.
O tamanho da janela indica
quanta liberdade quer a casa,
a quanta luz almeja.
Janelas costumam ser transparentes
para que não obstruam o como de tudo,
para que não interfiram no espetáculo do mundo.
Por isso as janelas,
caprichosas,
preferem o vidro de sílica pura,
não-chumbado.
(Porque) o vidro crivado de sais
que lhes dão cores
esconde uma vontade danada de sobrecolorir as
coisas,
um desejo violentamente humano de tingir o mundo.
Mas,
então,
já não são janelas:
são filtros às avessas.
De fora pra dentro
a janela esclarece
o íntimo de quem mora,
o grau de claro ou escuro
da beleza a que aspira,
o ar que respira
e o vento que lhe sopra.
A janela seleciona a paisagem,
aponta a beleza eleita
por quem pensou o furo
que lhe dá existência.
Olhar para uma janela,
alheadamente,
é uma ofensa ao que ela oferece
e uma confissão de estreiteza.
Fitar uma janela
é sentir o espanto que anima a vida;
lembrar-se
do encanto
que elas guardam.
Alexandre Costa é professor do departamento de filosofia da UFF. Autor de Heráclito: fragmentos contextualizados e A história da filosofia em 40 filmes (coautoria com Patrick Pessoa), entre outros. Tem atuado também no teatro, como escritor e dramaturgo; participou recentemente das montagens de Oréstia, com direção de Malu Galli e Bel Garcia, e Labirinto, de Daniela Amorim. Costuma engavetar seus poemas há anos.
Nara Coló Rosetto é arquiteta e urbanista, apaixonada pela cidade e suas possibilidades. Tem como atividade preferida flanar pelas ruas sempre acompanhada de boa musica, caderno e marcadores.Vive em atividades paralelas, entre elas o Janelas de SP.
mais janelas de sp no:
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