O UNIVERSO DE CADA UM
No mundo de Jesus quanta ternura
Nas palavras o Mestre da Bondade
Ao sofrimento opunha com doçura
Toda a esperança, a fé e a caridade
Não decifrei sequer o ser humano
Como alcançar a idéia portentosa
Que Nietzsche batizou de super-homem?
Mundo de Marx, prenhe de algarismos
Da ditadura dos determinismos
Mundo sem sonhos, frio, protestático.
Posso afirmar que não pensou em mim
Na visão do seu mundo pragmático.
E Freud, com seus deuses, seus demônios
Despersonalizados em hormônios?
Há muita coisa aqui no meu complexo
Pairando acima do fragor do sexo
Sejam eles Rousseau, Comte, Descartes
Os grandes pensadores colocaram
O traço magistral da própria arte
Na formação do mundo que sonharam
No turbilhão do meu viver aflito
Nem Kant, o semideus do criticismo
Me ajudará no meu pensar finito
A armar meu inconcluso silogismo
Ninguém faria um mundo do meu jeito
Porque ninguém sentiu os sentimentos
Com o coração que trago aqui no peito
Mundo singular, vórtice medonho
Perdido nos abismos do meu sonho
E todo adaptado aos meus tormentos
Universo de estranhas melodias
Povoado das mais loucas sinfonias
Que vivem em minha mente prisioneiras.
Mundo da permanência e da inconstância
Entre os extremos do eterno e do agora
E do vagar sem rumo e sem distância
Mundo que me alimenta e me devora
Promessa vã de coisa inacabada
Mundo da inércia, mundo do conflito
Com a mente na razão enclausurada
E o sentimento aberto ao infinito.
SONETO
Não me deixei Senhor, cruzar os braços
Na luta que este mundo desconhece
Na qual o meu espírito anoitece
Tão negra noite, de tão negros traços
Não me tirei a luz dos olhos baços
E nem esta esperança que fenece
Pois que ela é como o sol da minha prece
E o bálsamo de todos os meus cansaços
Bem sei que a luta é áspera e tremenda
Pairando em cada canto uma legenda
A sugerir que a causa esta perdida.
Mas sonho a glória de morrer lutando
a derrota só se mostra quando
Alguém se entrega antes do fim da lida.
José Alcino Bicalho nasceu em 1920 em Santa Rita do Glória - MG. É químico, bibliófilo, poeta, Consul Honorário do Marrocos, entre outras coisas dentro do seu vasto universo geminiano. Completa no dia 9 de Junho de 2016, 96 anos. Publicou o livro "Poesia a Destempo" que apresenta uma seleção de poemas reunidos ao longo de sua vida.

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